Já está. Aquilo que eu achava que ia acontecer confirmou-se. Por uma margem mais pequena do que eu esperava, mas confirmou-se:
CAVACO SILVA -- 2.739.331 votos (50,59%)
Tenho de dizer que me impressiona que um candidato que, claramente, se esforçou por manifestar o mínimo de opiniões, que se quis comprometer o mínimo possível e que quis revelar o mínimo de si ou do que pretendia fazer se fosse eleito recolha tantos votos à primeira volta.
Por outro lado, ocorreu uma surpresa muito interessante:
MANUEL ALEGRE -- 1.122.125 votos (20,72%)
Surpresa ainda mais interessante quando comparada com o resultado de outra candidatura de esquerda:
MÁRIO SOARES -- 776.618 votos (14,34%)
Para mim, o que se retira desta campanha é que, quando bem gerido, o silêncio pode valer realmente ouro. Estou sinceramente convencido que, se as eleições fossem apenas em Fevereiro ou mais tarde, Cavaco Silva não teria ganho à primeira volta.
Por muito grande que fosse a mística e admiração que granjeou durante estes 10 anos de silêncio, esta não resitiria mais tempo sem que este viesse "mais vezes a jogo" ou manifestasse a sua opinião relativamente aos assuntos sobre os quais era questionado.
Além disso, parece-me que, tal como diz o meu amigo Afonso a propósito da sondagem que fizemos, é hoje claro que os portugueses não confiam nos partidos portugueses.
Foi exactamente por isso que Cavaco Silva não se quis associar ao PSD. Do mesmo modo, a elevada votação de Manuel Alegre tambem teve a ver com isso. Até porque lhe permitiu passar uma imagem de candidato um pouco "contra o sistema".
E é realmente triste que entidades destinadas a tornar a Democracia mais eficaz e forte sejam vistas desta forma pelos portugueses. Algo tem de mudar rapidamente.
Por último, acho extraordinariamente interessante (digo interessante e não revoltante porque não sou militante do PS) esta cultura de desresponsabilização que agora existe no PS.
Mais uma vez o PS sofre uma derrota política sem que haja verdadeiras consequências políticas.
Não falo de consequências para o candidato, como é óbvio. Esse nunca lhes poderia escapar.
Falo antes de consequência para os membros da estrutura partidária. Tal como ocorreu nas autárquicas, o partido socialista sofreu uma enorme derrota e não surge ninguém para assumir responsabilidades, para dizer "nós erramos" ou "nós decidimos mal".
Sinceramente, aquando das autárquicas, eu esperava a demissão de Jorge Coelho do cargo de Coordenador Nacional Autárquico, já que parte da derrota lhe era directamente assacável por força de más decisões estratégicas.
E, apesar de não esperar qualquer demissão hoje, esperava que algo mais.
O Partido Socialista apostou, claramente, no militante errado. Se tivessem apresentado uma frente unida atrás de Manuel Alegre, em vez de lançar outro candidato e desperdiçar energia, tempo de antena e paciência dos eleitores a atacá-lo, certamente que o desgaste da imagem de D'Sebastião retornado de Cavaco Silva teria tido um desgaste muito maior.
Houve, claramente, um erro de casting do Partido Socialista. Mas parece que a culpa vai voltar a morrer solteira. Certamente que já está habituada a isso neste país....